O que o clima diz sobre a afluência
O que 95 anos de ENA mostram sobre o El Niño, a La Niña e as outras variáveis climáticas, subsistema por subsistema. Esta página descreve o que aconteceu, para quem quer entender a projeção e também criticá-la. As contas do modelo estão na Metodologia.
1O normal mudou
A MLT é a média de 1931 a 2024. O "normal" de uma época é a média dos 30 anos anteriores: é contra ele que o modelo compara cada mês.
| Normal (média do período) | Sudeste | Sul | Nordeste | Norte |
|---|
O Nordeste tinha normal de 112% da MLT até 1990; hoje (1995–2024) é 73%, e a última década ficou em 57%. O Sul fez o caminho inverso: de 82% (1931–1960) para 114%. O Sudeste oscilou entre 96% e 105%, mas a última década ficou em 85%; o Norte caiu para 84% na última década. Um ano "na MLT" hoje é um ano acima do normal no Nordeste e abaixo do normal no Sul.
O que pode explicar (citado pelo ONS e pela literatura, não medido neste estudo): no Nordeste, a seca no São Francisco desde 2012 e o aumento do uso consuntivo (irrigação); no Sul, a tendência de mais chuva no sul do Brasil desde os anos 1970; no Sudeste e no Norte, a sequência de anos secos depois de 2014.
2O El Niño forte separa o Sul do Norte
Cada barra é o período úmido que começa em novembro do ano indicado; os anos de El Niño forte (azul) e La Niña forte (laranja) vêm escritos sobre a barra. Fase pelo Niño 3.4 relativo médio de out–dez desse ano. No Sudeste, as abas mostram o SE-sul (Paranapanema, Tietê e Paraná incremental) e o SE-resto.
Cada ponto é um ano; traço = mediana. Forte ≥ 1,5; moderado 1,0–1,5; fraco 0,5–1,0; La Niña ≤ −0,5. Úmido do evento: nov/Y–abr/Y+1; úmido seguinte: nov/Y+1–abr/Y+2.
Nos 5 El Niños fortes (1965, 1972, 1982, 1997, 2015), o Sul ficou acima de 100% em todos (mediana 200%) e o Norte abaixo em todos (mediana 79%). Sudeste e Nordeste não mostram padrão, e a La Niña forte não tem efeito claro em nenhum subsistema (o Nordeste fica abaixo do normal na La Niña fraca, 77%). No úmido seguinte, o efeito do El Niño desaparece nos quatro.
3O sinal é geográfico, não do subsistema
No El Niño forte, as bacias do Sul (Jacuí, Iguaçu, Itajaí, Uruguai) chegam perto de 200%, e o Paranapanema (186%), o Paraná (124%) e o Tietê (115%) respondem junto com elas; Grande, Paranaíba e São Francisco não respondem; Amazonas e Araguari ficam abaixo. No El Niño moderado, só as bacias do Sul repetem o desenho (Iguaçu 145%, Jacuí 153%), sem chegar ao Paranapanema. Na La Niña forte, só o Araguari se afasta dos anos neutros (1 de 23 bacias, o que pode ser acaso); na La Niña fraca, São Francisco (77%) e Paranaíba (82%) ficaram abaixo. O efeito do ENSO na ENA é assimétrico: forte e claro no El Niño, fraco e disperso na La Niña.
4O Sudeste tem duas metades
SE-sul: Paranapanema, Tietê e Paraná incremental (43% da MLT do SE). SE-resto: o restante do SE (Grande, Paranaíba, Paraíba do Sul, Doce e partes do Amazonas, Tocantins e São Francisco). Última coluna: mediana dos anos neutros.
O SE-sul encheu nos 5 eventos (111% a 191%). O SE-resto foi de 70% a 144%, e em 1997 e 2015 ficou seco. Somados, um compensa o outro, e o SE agregado parece não responder ao El Niño. Por isso o modelo trata o SE em dois blocos e a página de produto mostra o agregado e a contribuição de cada um.
52026 ao lado dos El Niños fortes
Em setembro e outubro de 2026, o SE-sul (cerca de 200%) e o Sul (230% a 266%) estão na faixa alta dos eventos fortes, e o Norte (45%) está no ponto mais baixo entre eles para a época. Até aqui, 2026 segue o padrão dos El Niños fortes, com mais intensidade no SE-sul que em 1997 e 2015.
6Quando o sinal aparece e quanto dura
Correlação do Niño 3.4 de jul–set com a ENA de cada mês seguinte
Spearman, 1931–2026, Niño 3.4 relativo sem tendência. Ponto cheio: significativo após corrigir para os 11 mil testes do estudo (q < 0,10).
ONI no pico de cada El Niño forte e no úmido seguinte
ONI oficial (CPC). Pico: máximo de jun/Y a abr/Y+1. Seguinte: média de out/Y+1 a fev/Y+2. Abaixo de −0,5 é La Niña.
No Sul, o ENSO de julho a setembro explica bem a ENA de novembro e dezembro (correlação 0,58 e 0,44) e quase nada de janeiro em diante. E nenhum El Niño forte continuou no período úmido seguinte: o ENSO voltou ao neutro ou virou La Niña. O sinal útil fica no úmido corrente.
7A memória dos rios
Spearman entre a ENA de uma estação e a da seguinte. Úmido = nov–abr; seca = mai–out. No Nordeste, parte da correlação vem da queda de patamar desde os anos 1990 (capítulo 1).
Um período úmido forte deixa a seca seguinte alta: 0,85 no Nordeste e 0,67 no Sudeste. Da seca para o próximo úmido a memória cai, e de um úmido para o outro é fraca (nula no Sul). Por isso a persistência é a base do modelo: nos primeiros meses, o estado atual dos rios pesa mais que o clima.
8As outras variáveis
Coeficiente médio escolhido pelo teste multivariado (efeito em log da ENA por 1 desvio-padrão da variável), emissões de 1993 a 2025. Zero quando o modelo volta à persistência. N·|N|: intensidade do ENSO, que pesa mais nos eventos fortes. Azul: mais ENA; laranja: menos.
Com todas as variáveis juntas, o Sul responde só ao ENSO, e o Norte ao ENSO forte e ao gradiente do Atlântico (Atlântico Norte mais quente que o Sul tira chuva da Amazônia). PDO, Atlântico Sul e Índico não pesam em nenhum subsistema, e Sudeste e Nordeste ficam com a persistência.
Do diagnóstico ao modelo
Persistência como base
O número do modelo-v1 carrega a anomalia atual sobre a média dos últimos 30 anos, com a memória medida em 95 anos.
Sudeste em dois blocos
SE-sul e SE-resto são previstos separados e somados; a página mostra o agregado e a contribuição de cada um.
Camada de El Niño forte
A direção histórica do desvio (Sul e SE-sul para cima, Norte para baixo) aparece ao lado do número, sem alterá-lo.
Modelos-sombra
Só 5 El Niños fortes desde 1950: os ajustes numéricos com clima ficam em teste ao vivo em 2026/27. Ver a metodologia.